A Esquerda E A Direita Da Esquerda

C. S. Xavier
10 min readFeb 11, 2024
Praticamente Dois Braços Esquerdos

A hegemonia esquerdista que se consolidou na cultura lato sensu a partir da década de 1950 e que maciçamente foi denunciada, fraturada e abalada fundamentalmente pelo pioneiro trabalho intelectual e pedagógico do filósofo e professor, Olavo de Carvalho (1947–2022), iniciado a partir da década de 1990, quando ele escancarava que só havia espaço cultural — em todas suas infindáveis vertentes (incluindo atividade político-partidária) — para idéias e ações esquerdistas, e que no cenário político só havia por esta dominância “Extrema-Esquerda”, “Esquerda” e “Direita-da-Esquerda”, desvelando desde então a “Estratégia das Tesouras” que controlava integralmente o debate público e o jogo político — estratégia esta adaptada à realidade brasileira por ele do que o ex-agente soviético, Anatoliy Golitsyn (1926–2008), descreveu em seu livro “New Lies for Old”, de 1985, ocorrendo com a URSS e China como lâminas da “Estratégia das Tesouras” dentro do Movimento Comunista no cenário mundial —, e que tinha por aqui o PT e PSDB como as principais lâminas vermelhas do ardil de dominação, com os tucanos fazendo a vez de “direitistas”, “neoliberais”, “liberais” ou seja lá o que for e enganando milhões e milhões por décadas. Algo que a partir de 2022 ficou evidente até às percepções mais atrasadas e retardadas, com os tucanos finalmente sentando nos ombros dos petistas para tentarem, nesta dobradinha agora explícita e não mais velada, restaurar (pelo menos) a hegemonia política e do aparato de poder estatal das Esquerdas, pondo abaixo quaisquer dúvidas de retardatários disfarçados de céticos de toda sorte.

“A estratégia das tesouras fará sua parte em cada um desses itens; provavelmente, como golpe final, as lâminas da tesoura se fecharão. O elemento de dualidade aparente entre as políticas soviéticas e chinesas desaparecerá. Sua coordenação até agora oculta tornar-se-ia visível e predominante. Os soviéticos e chineses seriam oficialmente reconciliados. Então a estratégia das tesouras se transformará logicamente na “estratégia de um só punho fechado”, para fornecer a fundação e força motora de uma federação comunista mundial.
(…)
A “liberalização” e a “democratização” seguiriam as linhas gerais do ensaio tchecoslovaco de 1968. Esse ensaio pode ter sido exatamente aquele tipo de experimento político que Mironov tinha em mente no início dos anos de 1960, A “liberalização” teria de ser espetacular e impressionante. Possivelmente, serão feitos pronunciamentos formais sobre a redução da atuação do partido comunista; seu monopólio seria aparentemente podado. Teria início uma separação ostensiva dos poderes legislativo, executivo e judiciário. O Supremo Soviete receberia maior poder aparente, o presidente e os deputados maior independência aparente. Os postos de presidente da União Soviética e primeiro secretário do partido poderão também ser separados. A KGB seria “reformada”. Dissidentes seriam anistiados em seus países; os que estivessem exilados seriam autorizados a retornar, e alguns tomariam posições de liderança no governo. Sakharov poderá ser incluído em algum cargo do governo ou autorizado a lecionar no exterior. As organizações de artes, culturais e científicas, como a união dos escritores e a Academia de Ciências, tornariam-se aparentemente mais independentes, assim como os sindicatos. Clubes políticos seriam abertos para não-membros do partido comunista. Líderes dissidentes poderiam formar um ou mais partidos políticos alternativos. A censura abrandaria-se; livros, peças, filmes e obras de arte controversos seriam publicados, encenados e exibidos. Muitos artistas proeminentes atualmente fora da União Soviética retornariam e retomariam suas carreiras. Emendas constitucionais seriam adotadas para garantir o cumprimento das provisões dos acordos de Helsinque, e manteria-se um semblante de observância da lei. Os cidadãos soviéticos teriam maior liberdade para viajar. Observadores do Ocidente e das Nações Unidas seriam convidados pela União Soviética para testemunhar as reformas em ação.
Mas, como no caso tchecoslovaco, a “liberalização” seria calculada e esconderia de todos que fora introduzida de cima para baixo. Seria executada pelo partido através de suas células e membros no governo, no Supremo Soviete, nas cortes, na máquina eleitoral e também pela KGB, por meio de seus agentes entre os intelectuais e cientistas. Seria o apogeu dos planos de Shelepin. Isso contribuiria para a estabilização do regime doméstico e para o cumprimento de seus objetivos no exterior.
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A “liberalização” no Leste Europeu envolveria provavelmente o retorno de Dubcek e seus associados ao poder na Tchecoslováquia. Se fosse estendida até a Alemanha Oriental, poderíamos considerar até mesmo a derrubada do Muro de Berlim.
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Uma “liberalização” de maior escala na União Soviética e em outros países teria um efeito mais profundo ainda. O eurocomunismo poderia ser retomado. Aumentaria a pressão para a criação de frentes unidas entre partidos comunistas e socialistas e sindicatos em nível nacional e internacional. Desta vez os socialistas poderão finalmente cair na armadiIha. Governos de frente unida sob forte influência comunista poderão chegar ao poder na França, na Itália e possivelmente em outros países. As fortunas e influência dos partidos comunistas ressurgiriam com força. Todo o cerne da Europa poderá virar-se para um socialismo de esquerda, deixando apenas alguns bolsões de resistência conservadora”.

Anatoliy Golitsyn

É incrível a quantidade de acertos que ex-agente soviético Anatoliy Golitsyn fez no seu livro “Meias Verdades, Velhas Mentiras.”, concluído em 1984, sobre os rumos do Movimento Comunista em sua “Estratégia de Longo Alcance”, previsões que continham a queda do regime soviético e da “Cortina de Ferro”, o domínio socialista esquerdista da Europa, a união sino-soviética depois da sua “Estratégia das Tesouras” de rivalidade calculada e a Queda do Muro de Berlim. De forma até mais assombrosa de previsões — ou leituras da realidade com o conhecimento devido — há no Brasil o grande Olavo de Carvalho. Uma amostra disto, neste tema, pode ser vista em seu ensaio “A Mão de Stálin Está Sobre Nós”, de 03 de agosto de 2002, publicado em “O Globo”.

“Neste país há três e não mais de três correntes políticas organizadas: o socialismo fabiano que nos governa, o socialismo marxista e o velho nacional-esquerdismo janguista.
O socialismo fabiano distingue-se do marxista porque forma quadros de elite para influenciar as coisas desde cima em vez de organizar movimentos de massa. Seu momento de glória veio com a administração keynesiana de Roosevelt, que, a pretexto de salvar o capitalismo, estrangulou a liberdade de mercado e criou uma burocracia estatal infestada de comunistas, só sendo salva do desastre pela eclosão da guerra. O “think tank” mundial do fabianismo é a “London School of Economics”, parteira da “terceira via”, uma proposta da década de 20, periodicamente requentada quando o socialismo revolucionário entra em crise e é preciso passar o trabalho pesado, temporariamente, para a mão direita da esquerda. No poder, os fabianos dão uma maquiada na economia capitalista enquanto fomentam por canais aparentemente neutros a disseminação de idéias socialistas, promovem a intromissão da burocracia em todos os setores da vida (não necessariamente os econômicos) e subsidiam a recuperação do socialismo revolucionário. Quando este está de novo pronto para a briga, eles saem de cena envergando o rótulo de “direitistas”, que lhes permitirá um eventual retorno ao poder como salvadores da pátria se os capitalistas voltarem a achar que precisam deles para deter a ascensão do marxismo revolucionário. Então novamente eles fingirão salvar a pátria enquanto salvam, por baixo do pano, o socialismo.
Desde seus fundadores, Sidney e Beatrice Webb, o fabianismo nunca passou de um instrumento auxiliar da revolução marxista, incumbido de ganhar respeitabilidade nos círculos burgueses para destruir o capitalismo desde dentro. Os conservadores ingleses diziam isso e eram ridicularizados pela mídia, mas a abertura dos Arquivos de Moscou provou que o mais famoso livro do casal não foi escrito pelo marido nem pela esposa, mas veio pronto do governo soviético.
A articulação dos dois socialismos era chamada por Stalin de “estratégia das tesouras”: consiste em fazer com que a ala aparentemente inofensiva do movimento apareça como única alternativa à revolução marxista, ocupando o espaço da direita de modo que esta, picotada entre duas lâminas, acabe por desaparecer. A oposição tradicional de direita e esquerda é então substituída pela divisão interna da esquerda, de modo que a completa homogeneinização socialista da opinião pública é obtida sem nenhuma ruptura aparente da normalidade. A discussão da esquerda com a própria esquerda, sendo a única que resta, torna-se um simulacro verossímil da competição democrática e é exibida como prova de que tudo está na mais perfeita ordem.
No governo, nossos fabianos seguiram sua receita de praxe: administraram o capitalismo como se fossem capitalistas, ao mesmo tempo que espalhavam a doutrinação marxista nas escolas, demoliam as Forças Armadas, instituíam novas regras de moralidade pública inspiradas no marxismo cultural da Escola de Frankfurt, neutralizavam por meio da difamação midiática as lideranças direitistas, criavam um aparato de repressão fiscal destinado a colocar praticamente fora da lei a atividade capitalista e, “last not least”, subsidiavam com dinheiro público o crescimento do MST, a maior organização revolucionária que já existiu na América Latina. Em suma: fingiam cuidar da saúde do capitalismo enquanto destruíam suas bases políticas, ideológicas, culturais, morais, administrativas e militares, deixando o leito preparado para o advento do socialismo. Fizeram tudo isso sob o aplauso de uma classe capitalista idiota, incapaz de enxergar no capitalismo nada além da sua superfície econômica e ignorante de tudo o que é preciso para sustentá-la. Agora podem ir para casa, seguros de ter um lugar ao sol no socialismo, se ele vier amanhã, assim como no capitalismo, se ele durar mais um pouco.
Se o socialismo marxista tinha sua encarnação oficial no Estado soviético, enquanto o fabianismo era o braço “light” da estratégia stalinista, o nacional-esquerdismo que brotou na década de 30 também foi substancialmente uma invenção de Stalin. A grande especialidade de “tio Josef” era justamente o problema das nacionalidades, ao qual ele dedicou um livro que se tornou clássico. Foi ele que criou a estratégia de fomentar ambições nacionalistas, quando podia usá-las contra as potências ocidentais, ou freá-las, quando se opunham ao “internacionalismo proletário”. É verdade que falhou em aplicá-la com os nazistas, que se voltaram contra a URSS, mas obteve sucesso nas nações atrasadas, onde xenófobos de todos os naipes — getulistas, nasseristas, peronistas, africanistas e aiatolás variados — acabaram se integrando nas tropas da revolução mundial, varrendo suas divergências ideológicas para baixo do tapete e transmitindo uma impressão de unidade a seus adeptos nos países ricos (donde o milagre de feministas e gays marcharem contra os EUA ao lado de machistas islâmicos). A multidão dos nacionalistas revoltados dá um reforço externo à estratégia das tesouras, seja como massa de manobra ou, quando fardada, como arma de guerra.
Stalin foi o maior estrategista revolucionário de todos os tempos. Os efeitos de sua ação criadora chegaram às terras tupiniquins e ainda estão entre nós.Todo o panorama político nacional está hoje montado segundo o esquema delineado por ele nos anos 30. Mas, dos poucos que têm envergadura intelectual para enxergar isso, quantos têm interesse de discuti-lo em público?”

Olavo de Carvalho

O problema é que as pessoas mal sabem que dentro do Movimento Revolucionário já em sua principal materialização política, a Revolução Francesa de 1789, previamente havia este estratagema em que praticamente todos os clubes políticos que se tornaram partidos revolucionários durante aquele período de destruição de tudo e todos eram de essência esquerdista (da época): republicanos, anticlericais, antimonárquicos, e eivados de mentalidade socialista e positivista. Os girondinos — que nos livrinhos de Estória mequianos era a “Direita” francesa — tinham como axiologia quase todas as pautas dos extremistas esquerdistas cordeliers e jacobinos outros mais, só mudavam um pouco a intensidade e um tanto quanto a forma das ações, e só começaram a ocupar as galerias à Direita da Assembléia quando os clubes e partidos direitistas monárquicos já haviam sido varridos a partir de meados de 1791 e de forma completa em 1792, já no limiar do advento da Convenção. E este afunilamento foi progredindo até os girondinos mesmos serem eliminados a partir de 1793 e as Esquerdas se dividirem dentro de suas próprias fileiras — como amebas fazendo mitose, ou, pior, como uma célula sofrendo mutação e virando uma célula cancerígena —, em facções internas, em especial das matilhas jacobinas e do resto dos cordeliers, os dantonistas. Com Jacques Danton (1759–1794) caindo com seus seguidores, as divisões se seguiram até depois só sobrarem os jacobinos, e que depois da morte de Maximilien de Robespierre (1758–1794), também começaram a se dividir e se caçarem até o ímpeto da besta revolucionária perder seu vigor pela entropia da normalidade.

Naquele famoso livro publicado em 1902 do Vladimir Lênin (1870–1924), “O Que Fazer?”, dentre inúmeras diretrizes ele propõe a seus companheiros revolucionários, almejando o fortalecimento do Movimento Comunista como um todo, o tal do “Centralismo Democrático”, em que poderia haver debates nas correntes internas, mas quando decidido algo pelo politburo todos deveriam seguir caninamente a resolução, mesmo que discordando. O Centralismo Democrático basicamente foi o esoterismo comunista para o exoterismo que as Esquerdas mimetizaram para realizarem a Estratégia das Tesouras mundo afora, geralmente dividindo o poder entre socialistas e social-democratas, que era, parafraseando o outro esquerdista Benito Mussolini (1883–1945) — líder do Movimento Socialista na Itália até 1914, quando depois fundou o Fascismo, um Socialismo Nacionalista para ele chamar de seu —, o seguinte lema: “Tudo na Esquerda, nada contra a Esquerda, e nada fora da Esquerda”.

E na própria Rússia, décadas antes da Revolução de 1917, os partidos mais importantes e numerosos que comandavam o cenário político partidário no país czarista eram os sociais-democratas remanescentes do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) e suas duas dissidências, os bolcheviques e os mencheviques (que discordavam praticamente em nada com as diretrizes ideológicas dos bolcheviques, mas apenas dos seus métodos e agendas). E assim foi até os bolcheviques — a minoria cheia de intensidade apaixonada — vencerem e tomarem o poder pelo ardil, astúcia e força, e banir tanto o POSDR quanto os mencheviques. Deve ter sido extremamente penoso para o filósofo paulista que estudou profundamente o Movimento Revolucionário e que participou (na juventude) e estudou muito o Movimento Comunista ter que explicar esta obviedade histórica antiga desde a década de 1990 e ainda ter que dar de cara com uma maioria ignorante, idiota e imbecil de brasileiros que não criam naquilo na época e que somente décadas depois, quando o patente ficou insuportavelmente exposto, tiveram — e ainda com espanto — que constatar e tão logo sofrerem com tão recorrente estratagema como se fosse uma surpresa histórica, como se fosse a primeira vez: a sensação típica de todos tipos de ignorantes, idiotas e imbecis fadados a cometerem os mesmos erros ancestrais e a caírem nas mesmas ciladas do passado.

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C. S. Xavier

No exercício contínuo da mais perene atividade entre os mortais.